Blog · Artigos, Notícias, Legislação & Vídeos
Notícia

Restaurantes se preparam para o fim da escala 6x1: "Queremos flexibilidade nas 40h", diz ANR

Para a Associação Nacional de Restaurantes, a redução da jornada já é uma realidade. O setor agora pressiona por mais flexibilidade para adaptar as horas à rotina de cada operação.

6 min de leitura
Compartilhar

Na maior feira de food service do mundo, realizada em Chicago no fim de maio, um dos assuntos mais comentados pelos empresários brasileiros não era tendência de cardápio nem tecnologia de cozinha. Era uma PEC que tramita no Congresso.

O fim da escala 6x1 dominou as conversas durante a NRA Show. A redução para 40 horas semanais já é vista como uma realidade pelo setor. A discussão agora gira em torno da flexibilidade dessas horas.

Uma pizzaria trabalha à noite. Um restaurante por quilo concentra tudo no almoço. Uma casa de chá abre seis horas por dia. Obrigar todos a seguir uma grade fixa de oito horas diárias, segundo o setor, é ignorar como o food service funciona de verdade.

Essa é a posição oficial da Associação Nacional de Restaurantes (ANR), que chegou ao Congresso com uma proposta clara enquanto a PEC avança: aceitar as 40 horas, mas rejeitar o engessamento de oito horas fixas por dia. A partir da 41ª hora semanal, tudo continuaria sendo hora extra, sem mudança nessa regra.

Para a ANR, a lógica é de menos horas no total, mas mais liberdade para distribuí-las. Segundo Fernando de Paula, conselheiro e ex-presidente da entidade, a rigidez de uma jornada fixa contrasta com o que empresas e trabalhadores desejam — a possibilidade de encaixar outras atividades da vida pessoal ao longo do dia.

A proposta já foi entregue ao relator da PEC na Câmara, deputado Leo Prates, e apresentada ao Ministério do Trabalho. Segundo De Paula, a recepção foi positiva.

No chão das operações, a mudança já começou

Parte do setor não esperou o Congresso. No Grupo Trigo, dono de marcas como Spoleto, Gendai e China in Box, com mais de 700 unidades e R$ 2,4 bilhões em faturamento, alguns franqueados já migraram para a escala 5x2 por conta própria. Outros operam em regime 12x36 há anos.

Na BFFC, holding do Bob''s, a leitura é mais cautelosa. A rede, que faturou R$ 1,8 bilhão no último ano, reconhece que alguns franqueados já testam outros modelos, mas avalia que o fim da escala 6x1 representa perda de produtividade num mercado que já sofre para contratar e reter profissionais.

Outros empresários do setor afirmam já contratar funcionários por diária via aplicativos e veem o mercado caminhando para uma "uberização" do trabalho, com jornadas mais flexíveis.

A equação mais difícil: menos horas, menos gente disponível

A conta mais citada no setor aponta entre 10% e 20% de aumento na necessidade de pessoal com a redução das horas trabalhadas.

Essa equação chega num momento em que o mercado de trabalho brasileiro está no seu melhor nível em mais de uma década: a taxa de desemprego fechou 2025 em 5,6%, o menor patamar da série histórica. Mais gente empregada significa menos gente disponível para preencher novas vagas.

No varejo alimentar, o problema já tem nome. A APAS fala abertamente em "apagão de mão de obra". A ABRAS contabiliza mais de 357 mil postos de trabalho abertos apenas no setor supermercadista — e o food service enfrenta dinâmica semelhante.

Para De Paula, o alerta é direto: com baixo desemprego e falta de mão de obra, quem não consegue administrar acaba fechando o negócio — e geralmente é o pequeno empresário quem mais sofre.

Por que reter está cada vez mais difícil

Por trás da escassez há uma mudança de comportamento que o setor ainda está aprendendo a lidar. A Geração Z, hoje a principal fonte de mão de obra para o food service, tem uma relação diferente com o trabalho.

Segundo pesquisa da consultoria Manpower Group, 63% dos jovens entre 18 e 24 anos preferem trabalhos flexíveis por projetos a vínculos empregatícios tradicionais. Não por acaso, 40% deles trocam de emprego em menos de um ano.

A flexibilidade deixou de ser benefício para se tornar critério de seleção. Levantamento do Great Place to Work mostra que 98,1% dos trabalhadores consideram flexibilidade um diferencial, e 83,7% afirmam que recusariam uma proposta de emprego que não a oferecesse.

O setor de comércio e serviços, que concentra boa parte das vagas do food service, já registra a maior taxa de pedidos de demissão voluntária entre todos os setores, puxada justamente pelos jovens.

O cenário se complica quando se olha para a remuneração. Apesar de os salários terem crescido acima da inflação nos últimos anos e o rendimento médio estar em patamares acima da pré-pandemia, o setor de comércio e serviços ainda registra os menores salários reais de admissão entre todos os setores da economia — e não recuperou os níveis de 2019. Para o funcionário de menor renda, que representa parte relevante da base do food service, o poder de compra ainda está abaixo do que era antes da pandemia.

Como está a tramitação no Congresso

A Proposta de Emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1 foi aprovada pela comissão especial da Câmara dos Deputados em 27 de maio de 2026. O texto estabelece dois dias de descanso semanal a todos os trabalhadores, sendo um deles preferencialmente aos domingos, e reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais.

O parecer foi construído após acordo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). A proposta prevê transição gradual para a nova jornada e regras específicas para diferentes categorias.

Pelo cronograma definido no relatório, 60 dias após a promulgação da PEC a jornada máxima cairá para 42 horas semanais. Um ano depois, o limite será reduzido para 40 horas. As duas folgas semanais passam a valer integralmente 60 dias após a entrada em vigor da emenda.

O que muda na prática para empresários e funcionários

Para donos de restaurantes, o impacto depende do modelo de operação. Quem já trabalha com escalas alternativas como 12x36 ou 5x2 tem menos adaptação a fazer. Quem opera com turnos fixos e equipe enxuta vai precisar contratar mais ou redesenhar a grade de horários — e o custo disso ainda é incerto.

Para os funcionários, a mudança prometida é menos horas semanais com o mesmo salário. O risco, segundo o setor, é que a escassez de profissionais pressione os salários para cima e torne inviáveis operações menores, reduzindo as vagas disponíveis no médio prazo.

Para Simone Galante, fundadora da Galunion, consultoria especializada em food service, o caminho passa por um diagnóstico cirúrgico de cada operação, mapeando picos de demanda, rentabilidade por faixa horária e complexidade de cada turno antes de qualquer decisão. Segundo ela, o setor precisa tratar o tema com menos polarização e mais capacidade de redesenho — em parte das operações haverá oportunidade concreta de melhora, em outras será necessária adaptação mais profunda.

Para De Paula, é justamente a diversidade de modelos operacionais — da pizzaria noturna ao restaurante por quilo — que torna inviável qualquer padrão único de jornada para o setor.

O que isso significa para operadores de food service

A discussão sobre o fim da escala 6x1 expõe um desafio que vai além da política trabalhista: a capacidade de cada operação de redesenhar sua grade de horários com base em dados reais, não em suposições.

Mapear picos de demanda por hora, rentabilidade por turno e produtividade por colaborador — o diagnóstico que especialistas do setor já recomendam — depende diretamente da qualidade dos dados que o sistema de gestão do estabelecimento consegue gerar. PDVs que registram vendas por hora, comandas por turno e desempenho por colaborador transformam uma decisão hoje baseada em intuição numa decisão baseada em evidência, justamente no momento em que o setor mais precisa otimizar o uso de cada hora trabalhada.


Fonte: Exame — Restaurantes se preparam para o fim da escala 6x1: "Queremos flexibilidade nas 40h", diz ANR. Publicado em 27/05/2026.

6 min de leitura
Compartilhar
Notícia

Vamos conversar sobre a sua operação?

Nossa equipe ajuda revendas e operações a estruturar tecnologia, cardápio digital e gestão para crescer com previsibilidade.

Falar com a equipe
Newsletter

Gostou? Receba mais conteúdos como este

Duas vezes por semana enviamos uma seleção dos melhores artigos do blog para o seu e-mail.

Duas vezes por semana, conteúdo selecionado. Cancele quando quiser.

Falar no WhatsApp