O iFood fechou o ano fiscal de 2026 (abril de 2025 a março de 2026) com receita líquida superior a R$ 10 bilhões e avanço expressivo do lucro operacional, segundo balanço divulgado pela controladora holandesa Prosus. O Ebitda da empresa somou R$ 2,2 bilhões no período, alta de 40% a 43% na comparação anual, enquanto o volume bruto de transações (GMV) subiu 57%, para R$ 150 bilhões.
Os resultados vêm num momento de concorrência crescente no setor: as chinesas Keeta e 99Food, além da colombiana Rappi, intensificaram a disputa pelo mercado brasileiro de entrega de comida. Segundo relatório do BTG Pactual, a resposta do iFood não passa por guerra de preços, mas por diversificação — o crescimento da companhia deixou de depender quase exclusivamente do delivery tradicional de restaurantes.
Novas verticais já respondem por um terço da receita
Segmentos como fintech, soluções de gestão para restaurantes (ERP), entrega de mercado e farmácia já representam 33% da receita total do iFood, ante 21% há dois anos — e, segundo o BTG, todas essas frentes já teriam atingido o ponto de equilíbrio operacional.
O destaque é o braço financeiro da empresa. A vertical de fintech, que reúne banco digital para restaurantes parceiros, a adquirente Zoop e o programa de benefícios corporativos iFood Benefícios — que disputa espaço direto com Sodexo e VR — gerou cerca de R$ 2,5 bilhões em receita, com crescimento superior a 100% no ano. Isoladamente, o iFood Benefícios já movimenta mais de R$ 1 bilhão em recargas mensais.
O núcleo de delivery de comida, ainda responsável por cerca de dois terços da receita, manteve crescimento próximo de 20% ao ano. Mas a expectativa dos analistas do BTG é que a expansão futura venha cada vez mais da criação de novas ocasiões de consumo, não apenas da entrada de novos usuários.
Turbo e Hits: as duas frentes que sustentam a expansão
Dois movimentos exemplificam essa estratégia. O primeiro é o Turbo, serviço de entrega ultrarrápida que ganhou força em farmácias — cerca de 70% dos pedidos já chegam em até 20 minutos, com uso de inteligência artificial para identificar restaurantes com capacidade de preparar pedidos mais rápido do que o estimado.
O segundo é o Hits, frente de refeições mais baratas com tíquetes abaixo de R$ 30. Desde setembro, o volume de pedidos nessa modalidade mais que dobrou e já representa cerca de 8% do total de pedidos da plataforma, com meta de alcançar entre 15% e 20% até o fim do ano.
A pressão dos concorrentes chineses
A 99Food, controlada pela Didi Global, relançou sua operação de entrega no Brasil em abril de 2025 com promessa de investir R$ 2 bilhões só no primeiro ano, apoiada na base do 99 SuperApp, com mais de 60 milhões de usuários ativos em 3.300 cidades. Já a Keeta, da Meituan, começou a operar em São Paulo em dezembro e anunciou plano de investimento de R$ 5,6 bilhões para os próximos cinco anos — ainda que tenha adiado o lançamento no Rio de Janeiro e cortado equipe no início do ano.
A disputa chamou a atenção do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que abriu investigação contra a 99Food por suposto abuso de posição dominante. Em maio, o órgão passou a investigar também o próprio iFood, por suspeita de descumprimento do acordo de 2023 que limitou contratos de exclusividade com restaurantes — caso ao qual se soma uma ação civil movida pelo iFood contra a Keeta por concorrência desleal, com acusação de espionagem corporativa.
Mesmo sob escrutínio regulatório, o iFood manteve ritmo forte de investimentos: entre abril de 2025 e março de 2026, os aportes diretos da companhia somaram R$ 17 bilhões, incluindo a aquisição de participação minoritária na Daki, plataforma digital de supermercados.
Integração com o ecossistema Prosus como vantagem competitiva
Segundo o BTG, o iFood optou por aprofundar a integração com o ecossistema mais amplo da Prosus — que também controla a agência de viagens Decolar, o classificados OLX e a plataforma de eventos Sympla — em vez de competir por preço. Mais de 20% da receita B2C da Decolar no Brasil já viria de clientes que iniciaram a jornada de compra dentro do aplicativo do iFood.
O programa de fidelidade também foi reforçado: o Clube iFood passou a oferecer R$ 250 em créditos mensais, acesso gratuito a Spotify Premium e YouTube Premium e descontos de até 25% na Decolar — benefícios que elevam o custo de troca para o consumidor.
Com cerca de 80% de participação no mercado brasileiro de delivery online de alimentos, a avaliação do BTG é que parte das vantagens competitivas do iFood já se tornou estrutural: frequência de uso elevada, logística proprietária, ganhos operacionais via inteligência artificial e capacidade crescente de venda cruzada formam um ciclo de retroalimentação — cada transação gera mais dados, mais engajamento e novas oportunidades de monetização.
O que isso significa para restaurantes e revendas parceiras
O movimento do iFood confirma uma tendência que já vinha se desenhando no setor: a plataforma de delivery deixou de ser apenas um canal de vendas e passou a ser um ecossistema de serviços financeiros, logísticos e de gestão para o restaurante parceiro.
Para operadores de food service, isso reforça a importância de ter sistemas de gestão que dialoguem nativamente com múltiplas plataformas de delivery — e não apenas com uma única integração fixa. Quanto mais os grandes players diversificam (fintech, entrega ultrarrápida, benefícios corporativos), maior a complexidade operacional para quem recebe pedidos de diferentes canais simultaneamente, e maior o valor de um PDV central que consolide tudo num único painel de controle, sem depender de conciliação manual entre plataformas.
Fonte: InvestNews — Menos delivery de restaurante e mais VR e crédito: como o iFood reage às investidas de Keeta e 99 — 30/06/2026.
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